Óbitos da Covid-19 no Brasil e impressões sobre diferenças regionais de saúde baseadas em demografia
- Vagner da Silva

- 9 de jan. de 2023
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Atualizado: 9 de jan. de 2023
A Covid-19 e a pandemia desencadeada por esta doença através da ação no organismo humano do vírus SARSCov2, foi, em sua maior incidência de fatalidades no mundo todo e continua sendo, de muito pesar para famílias que tiveram seus entes queridos afetados definitivamente por ela através dos óbitos confirmados, tanto no âmbito local quanto globalmente.
Vários países enfrentaram crises terríveis que comprometeram enormemente a capacidade de atendimento em seus sistemas de saúde.
Naquele momento inicial de eclosão da pandemia, entre o final de 2019 e início de 2020, devido à avalanche de casos que mereceram tais cuidados hospitalares sem sequer um consenso sobre o tratamento mais adequado a ser adotado, são vários os relatos que indicam total esgotamento das equipes médicas mundo afora.
Isso, sem dúvida, influenciou ainda mais os números assombrosos de óbitos que se acumularam e assustaram a todos.
No Brasil, além dos mesmos problemas enfrentados, tivemos, infelizmente, a contribuição de uma desastrada falta de coordenação assertiva no nível federal para o enfrentamento claro da pandemia. Assim, cada Estado, com sua própria iniciativa, determinava quais as ações seriam as mais adequadas para lidarem com as difíceis circunstâncias perante a população.
Particularmente, lamento profundamente o que ocorreu nesses quase três anos e praticamente 695 mil mortos oficialmente registrados pelas Secretarias Estaduais de Saúde dos Estados, me solidarizando com as famílias e amigos de todos eles.
A proposta desse artigo é o de, através dos números regionalizados do trágico período para a história da saúde do Brasil baseados nas informações demográficas existentes – Censo do IBGE-2010, inferir sobre algumas questões que muitas vezes poderão passar ao largo para decisores.
Com isso, alguns gráficos, tabelas, cartogramas e painéis foram elaborados para ilustrarem com maior facilidade o que se pretende comentar.
No painel (“dashboard”), a seguir disponibilizado, elaborado para acompanhamento dos óbitos decorrentes da pandemia da Covid-19 no Brasil, observam-se várias informações baseadas nesses números.

Os óbitos - registrados diariamente pelas Secretarias de Saúde dos Estados e indicadas na coluna (1) da tabela, por região identificam o Sudeste como o espaço geográfico onde quase metade (1ª, com 48%) de todas as mortes decorrentes dessa doença foram registradas. A região Nordeste, em segundo lugar nessa nefasta posição, com 19% de todas as mortes ocorridas no Brasil registradas, é menos de 40% do número alcançado pelo Sudeste. Na sequência, estão a região Sul (3ª, com 16%), a Centro-Oeste (4ª, com 10%) e a Norte (5ª, com 7%).
Aqui, a ordem da quantidade de população - constante da coluna (2) da tabela, contida em cada espaço geográfico definido foi transgredida em desfavor da região Centro-Oeste, tendo um contingente de óbitos superior a sua ordem relativamente a sua população (5ª) dentre todas as regiões. Com apenas 8% da população, atualmente, a região Centro-Oeste participa com 10% dos óbitos. A Sudeste, com 42% da população, participa com 48% - 6% a mais quando comparados esses números. A Nordeste, com 27% da população, participa com 19% - 8% a menos na mesma comparação. A Sul, com 14% da população, participa com 16% - 2% a mais nessa comparação. Finalmente, a Norte, com 9% da população, participa com 7% - 2% a menos na comparação.
Além da informação dos números regionais, é possível identificar, logo abaixo do gráfico de torta, médias móveis de 7, 14 e 30 dias no nível nacional, para os óbitos apurados até o dia indicado. Mais importante que os números médios dos períodos apurados é a variação entre os períodos. Quando entre -15% e 15%, considera-se que há estabilidade nos óbitos. Quando abaixo de -15%, o cenário é de redução nos óbitos. Quando acima de 15%, incremento.
Isso aparece ilustrado na coluna à frente dos nomes dos estados na apuração dos números mensalmente registrados, nas cores azul – redução, amarelo – estabilidade e vermelho – crescimento. Também formam um cartograma constante do painel, logo abaixo da minitabela de médias móveis. Ele pode ser observado com maior detalhe a seguir.

Observam-se, ainda, médias mensais nacionais e do estado de São Paulo, no comparativo entre os números e pelo número paulista ser o de maior influência no número total. Elas podem ser visualizadas com maior detalhe nos gráficos nacional e de São Paulo a seguir.


Os minigráficos dos Estados e do Brasil, sob o título “Tendência mensal”, perfazem a variação dos números mensalmente desde o primeiro registro de óbito ocorrido em 16 de março de 2020, no Estado de São Paulo, até o momento.
Praticamente todos os Estados tiveram um comportamento temporal, ou seja, com óbitos registrados em seus máximos e mínimos, de modo uniforme ao longo do período de apuração dos números. A exceção ocorreu com os Estados do Pará e de Pernambuco, cujos picos de óbitos ocorreram em maio de 2020 e não em abril de 2021, como todos os outros 25 Estados simultaneamente apresentaram. Apesar disso, também foram afetados pela onda de uma nova variante do vírus, identificada na época como Delta, acompanhando a tendência dos demais Estados.
Ainda nos minigráficos, é possível notar que os óbitos não foram tão intensos nos Estados da região Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no início da pandemia, quando comparado aos demais, indicando o fluxo da doença, e óbitos, dentro do território nacional, que se iniciou no Sudeste, foi rapidamente para o Norte, depois Nordeste, Centro-Oeste e Sul. Isso inverte um pouco a lógica demográfica, porém, diz muito sobre deslocamentos e fronteiras, além de recursos – ou a falta deles, faixas etárias mais vulneráveis, comorbidades e desigualdades, além de acesso a recursos médicos mais eficientes e tempestivos.
O cartograma à direita em tons de marrom indica os índices estaduais relativos aos óbitos a cada 100.000 habitantes. Quanto mais escuros os tons, maior o índice variando entre 156, no Maranhão – o menor, ao 443 óbitos a cada 100.000 habitantes, no Rio de Janeiro. A média nacional é de 331 óbitos a cada 100.000 habitantes. Além do Rio de Janeiro, ainda figuram nesse triste ranking, Mato Grosso, Rondônia e Paraná, acima de 400 óbitos a cada 100.000 habitantes. Esse cartograma pode ser observado com mais detalhes a seguir e sintetiza o que se observa na coluna (4) da tabela.

Por outro lado, a tabela a seguir demonstra que, apesar da demografia e sua concentração desempenharem papéis decisivos nas estatísticas, esses fatores não são os únicos a justificarem tantas perdas.

Apesar dos números se concentrarem no Sudeste e seus Estados, chama a atenção a relação que pode ser feita entre a densidade demográfica e o índice de óbitos a cada 100.000 habitantes. No caso de Roraima, Amazonas e Mato Grosso, embora tais Estados apresentem densidade demográfica baixa o número de óbitos a cada 100.000 habitantes é relativamente alto, sendo respectivamente 179, 156 e 128 vezes maior que suas densidades, como demonstrado na coluna (5).
Ressaltemos, aqui, que para cada óbito existe uma rede de pessoas da família e amigos próximos e conhecidos afetados pelo infortúnio do acontecimento. Estimemos que esse número de diretamente afetados pela notícia seja de 10 pessoas por óbito - vide coluna (6), considerando 5 familiares e 5 do círculo de amizades próximas do falecido, embora na prática seja claramente muito maior, dependendo do Estado e das ligações que cada um ao longo de sua vida, promove, o que é variável a partir das características regionais e culturais.
O resultado disso é apresentado na tabela, em sua coluna (7), que também demonstra o percentual desse contingente de afetados sobre a população dos Estados cujos números de óbitos foram registrados diariamente, até 07 de janeiro de 2023.
Isso indica o impacto desse evento e a relativização entre os Estados com maiores ou menores populações e densidades demográficas, apontando muito para as consequências sanitárias, econômicas e sociais do período no âmbito local ou nacional.
Características mais próprias de cada um dos Estados deverão ser averiguadas nos próximos anos por pesquisadores que certamente confirmarão novos achados. Essas pesquisas também auxiliarão no endereçamento de novas possibilidades de defesa a essas populações em circunstâncias correlatas.
O Estado do Amazonas, por exemplo, sofreu com a logística de infraestrutura básica para atendimento. Roraima também tem um cenário onde até mesmo a energia para manutenção de aparelhos era prejudicada, com parte do fornecimento ocorrendo a partir da Venezuela, em crise financeira. O Mato Grosso tem um histórico controle de fronteiras complexo, o que pode ter contribuído para maior rapidez da disseminação de variantes mais agressivas a sua população, mesmo sob condições de menor adensamento populacional.
O artigo pretende mais estabelecer novos olhares do que esclarecer ou aprofundar os conceitos de causa e consequência sobre os temas trazidos.
Do ponto de vista da gestão – tanto sob a ótica coletiva, quanto da individual e de mercado, vários seriam os cenários de projetos, riscos e sustentabilidade a serem explorados a partir dos dados trazidos.
Dependendo dos investimentos que poderiam ser destinados aos Estados no que se refere a políticas públicas de saúde, essas situações registradas podem ser levadas em consideração visando minimizar ocorrências futuras de mesma monta, com diminuição de riscos nas perdas humanas e menores destinações de recursos emergenciais.
Antecipando cenários, melhores soluções são imaginadas, permitindo uso balanceado e ao tempo certo de equipamentos, verificação de infraestrutura, adequação de parcerias cruciais no contingenciamento, entre outras possibilidades.
Aspectos de comunicação mais assertiva com a população mais vulnerável também englobariam projetos específicos para tratarem das demandas nesse quesito.
A preservação da cultura local e suas tradições também auxiliam na credibilidade das ações que são promovidas pelos decisores junto ao público, permitindo a permanência, ou substituição, de estratégias para combater eventos similares sem resistências excessivas e que auxiliariam no processo de proteção das comunidades menos favorecidas atuando em redes de assistência que identificariam previamente os mais vulneráveis.
O conhecimento desses indivíduos em suas regiões é fundamental para difundir políticas de auxílio de modo eficaz, eficiente e efetivo. Considerando as características do Estados que foram ilustrados pelos números registrados como fora da curva da densidade demográfica como fator determinante para maior incidência de mortes relativas – Roraima, Amazonas e Mato Grosso, com forte ascendência de povos originários, migrantes e comunidades isoladas, esses passos poderiam ser de grande valia em futuros ajustes de planos visando a sustentabilidade e assistência às gerações futuras, nessas regiões.
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